1. EU, TCHISSOLA - PARTE 1: TCHISSOLA E O BISPO
EU, TCHISSOLA
PARTE 1 - TCHISSOLA E O BISPO
1
Eu Tchissola, a mais ignorante, a menos
preparada,
a que não sabe nada de nada, a mim coube levar
adiante essa mensagem torta, como a me sublevar
contra a letra morta que mata o Espírito, mas justo eu?,
incapaz de sustentar um argumento, que na presença
dos sábios emudeço, e dos doutos fico ofuscada, eu,
que fui reprovada já nas primeiras
letras, que não passei
nas matérias básicas da fé e da teologia, euzinha
que só sabe da vida sua alegria, que talvez por isso
viva em permanente pecado, o pecado de não ser
capaz de erguer o cálice sem derramar o vinho,
de segurar a patena sem espalhar o pão pela sala,
espargindo suas migalhas aos cães e aos passarinhos,
eu Tchissola, de olhos espantados
ante a beleza e o brilho
das pratarias sobre a mesa, que chegam a refletir
o próprio rosto desse Cristo embranquecido, um pouco
triste, onde não vejo traço de sua alegria por ter
libertado a nós, seus pequeninos, de séculos do domínio
dos fariseus e doutores da lei, essa alegria de recuperar
o ser humano para si mesmo, e
torná-lo apto aos voos
acrobáticos das almas febris que percebem o Espírito
que com elas brinca de pega-pega em meio aos cúmulus,
aos estratos, aos cirros, conduzindo-as imperceptivelmente
até o andar de cima, onde aguarda, paciente, o portão
que nunca foi fechado, do Jardim do Paraíso, eu, euzinha? (22-2-26)
a que não sabe nada de nada, a mim coube levar
adiante essa mensagem torta, como a me sublevar
contra a letra morta que mata o Espírito, mas justo eu?,
incapaz de sustentar um argumento, que na presença
dos sábios emudeço, e dos doutos fico ofuscada, eu,
nas matérias básicas da fé e da teologia, euzinha
que só sabe da vida sua alegria, que talvez por isso
viva em permanente pecado, o pecado de não ser
capaz de erguer o cálice sem derramar o vinho,
de segurar a patena sem espalhar o pão pela sala,
espargindo suas migalhas aos cães e aos passarinhos,
das pratarias sobre a mesa, que chegam a refletir
o próprio rosto desse Cristo embranquecido, um pouco
triste, onde não vejo traço de sua alegria por ter
libertado a nós, seus pequeninos, de séculos do domínio
dos fariseus e doutores da lei, essa alegria de recuperar
acrobáticos das almas febris que percebem o Espírito
que com elas brinca de pega-pega em meio aos cúmulus,
aos estratos, aos cirros, conduzindo-as imperceptivelmente
até o andar de cima, onde aguarda, paciente, o portão
que nunca foi fechado, do Jardim do Paraíso, eu, euzinha? (22-2-26)
ele chamou primeiro o camundongo, e lhe disse,
“Camundongo, crie o mundo para mim;
não precisa ter pressa, leve o tempo que quiser,
mas faça no capricho, esse será um mundo
especial para mim, pois tenho planos incríveis,
que depois te conto, ideias que eu tive
de coisas que ainda não existem”, e o ratinho,
que havia pelos cantinhos, e foi formando
as coisas, e voltava a Deus a cada dia,
para dar conta do trabalho, e dizia assim,
“Deus, hoje eu fiz a luz, veja o que acha,
estava tudo escuro, difícil de enxergar, achei
que ficava melhor trabalhar no claro, aí fiz
a luz do jeito que o Senhor tá vendo, mas,
se não gostar, deixo como estava, ou faço
a água – já viste a água?, acho que foi uma ideia
muito boa, cristalina e cheia de novidade, e ainda
por cima molhada – ou posso juntar toda a água
num mesmo lugar, e o que sobrar eu invento,
porque vai ter muito lugar...”, e Deus respondia,
“Faça como quiser, amiguinho, você já levou
trocentos trocentilhões de anos, continue
assim, sem se apressar, está indo muito bem,
falar, e as coisas que dizia ninguém as pôde
registrar naquela hora, pois o papel e a tinta
ainda estavam por inventar) e assim foram
as coisas, e tudo demorooooou muito a ficar
pronto, e, no final, Deus disse ao ratinho,
“Deixe agora assim como está, gostei
do seu jeito de trabalhar”, e o ratinho falou,
a irmã lesma e as formigas, e umas duas abelhas,
e juntas fizemos funcionar toda essa maquinaria,
que só tem que dar nessa manivela aqui, e ela
funcionará eternamente, às vezes bem depressa,
às vezes bem devagarinho”, e Deus fez girar
a manivela, e o mundo começou a se mover,
conforme está escrito, “No princípio...” e o resto
todos já conhecemos, e o fato é que desde então
o mundo está construído sobre tijolos muito pequenos,
sobre seres pequeninos, e mesmo a maior tempestade
é formada por gotas que mal vemos, e a terra imensa
é feita de pedrinhas, areia e muitos vazios, e tudo
grandeza que não comece no miúdo e no diminuto,
e talvez por isso seja eu, Tchissola, quase invisível
(pra quem me olha da lua), e tão reles, mas tenha eu
também, dentro de mim, todos os sonhos do mundo. (22-2-26)
3
o corpo devastado pela luxúria alheia
desde a infância, vergastado pela saliva
peçonhenta de homens depravados,
e acusada de tê-los seduzidos, por ser bela,
pelos lábios grossos, pelos braços redondos
e as coxas fortes, eu Tchissola, a imagem
da perfeita sacerdotisa de todo mal,
conforme tantas vezes dito pelo senhor bispo,
e Eulália, para depois me apaixonar por Grilo,
mal entrada na minha adolescência, e casei-me
e dei-me a ele com um amor apaixonado,
que não pensei, nem por um instante,
que pudesse ser amaldiçoado, como ouvi
estavam fadadas ao chiqueiro das paixões
que vivem nos lodaçais, eu, chamada de boçal,
de animal, de besta furiosa quando me revoltava,
quando recusava meu torso à chibata, e meus
tesouros aos piratas, eu, a quem nunca disseram
“estás perdoada” depois de cada abuso sofrido,
de um abraço sincero, de um prazer amado,
de um gozo só nosso, de uma vida na graça
de Deus, sem nunca mais ouvir o esconjuro
com que tantas vezes fui taxada, “devassa!”,
“maldita!”, “maldita!”, “devassa!”. (23-2-26)
e dizendo, “Venha, meu demônio, meu diabinho”,
e imputava a mim seu próprio pecado, como se
fosse eu a causa de sua perversão, e ele falava
que preferia que eu fosse feia e disforme, para que
ele não tivesse que lidar com tamanha tentação
dentro de sua própria casa, e era sempre eu,
vítima de Tchissola, a menina preta que ele despia
com os olhos, com a língua, com o que estivesse
mais à mão, e suspirava, “Demônio, demoninho”,
e se esfregava em mim, lascivo, e cuspia em mim
ao fim do ato, atribuindo a mim a lascívia,
condenando-me ao mais fundo inferno, por
desencaminhar o pobre e velho bispo, ele inocente
demoninho”, parecia saída da fornalha direto
para o fogo de suas práticas malditas, e não era
eu a primeira, eu era só a preferida, a que ele
chamava a qualquer hora, “Venha, meu demônio,
meu diabinho”, e depois me jogava fora, como
um trapo eu fôra, e me obrigava a ajoelhar-me
e pedir perdão pelos meus atos, que não era eu
me esperava, e me dava penitências que nunca
mais acabavam, e tinha gozo em ver as lágrimas
que me corriam dos olhos, e ouvir os soluços
me arrancados do peito, e me chutava brutalmente,
arrastando-me pelo chão da casa, para me ver
sangrar, e repetia, para cada gota de sangue que caía
pelo caminho, “Meu demônio, meu diabinho”. (24-2-26)
5
do que de costume, acometendo Tchissola entre os bancos
da própria capela do paço episcopal, queimando suas costas
com a brasa do charuto que sempre trazia entre os dedos, enquanto
perpetrava seu abominável ato, deixando a menina em frangalhos
a missa na igreja de São Gonçalo – Tchissola arrastou-se
penosamente para atrás do altar, sobre o qual em sua cruz
Cristo parecia não se importar, e ali esteve por longas horas,
enquanto a carne e a alma latejavam de dor e agonia, e então
fragmentos de papel, com alguma coisa escrita, e puxou-os
para fora com cuidado para que não se rasgassem, e começou
a lê-los devagar, pois eram uma mistura de garranchos obscuros
e incompreensíveis, mesclados a trechos da Escritura, e assim
numa letra trêmula, a tradução, “Minha voz lança um grande brado
ao Senhor, em alta voz imploro ao Senhor”, e seguiam-se outras
exclamações, como “Domine, clamavi ad te, exaudi me, intende
vem logo em meu socorro; escuta a minha voz quando Te invoco”,
sulcos suos[3]”, e a tradução, “Ah, como me perseguiram
desde a minha juventude (...) lavraram sobre o meu dorso
os lavradores, nele abriram longos sulcos”, e finalmente,
“De profundis clamavi ad te Domine, exaudi vocem meam[4]”,
a ti, Senhor, ouve a minha voz”, e muitas outras coisas escritas
em latim, e sob elas as mesmas frases em português traduzidas,
e Tchissola entendeu que ali estava diante dela o grito desesperado
de alguém, que deixou sob aquele altar, silencioso como um sepulcro,
apelos e rogos à Providência divina, orações que, de outra forma,
o que se passara, eram perfeitamente compreensíveis, e assim
Tchissola decidiu-se por fazer o mesmo, pois, se ninguém
nessa terra lhe ouvia os gritos, talvez no céu, talvez aquele Cristo
quieto, impotente em seu martírio, escutasse o sofrimento,
talvez lhe estendesse a mão, talvez lhe ouvisse o coração,
talvez, em sua infinita compaixão, lhe trouxesse algum alívio. (24-2-26)
Tchissola esgueirou-se na sacristia, e encontrou ali
uma ensebada Bíblia, que pertencera ao Capelão, na qual
os textos estavam dispostos em três colunas, em grego,
depois em latim e por fim em português-galego, que
ela compreendia bem, e Tchissola buscou as partes
que havia lido no dia anterior, e, para grande surpresa sua,
tivesse usado aquele mesmo livro para pedir socorro a Deus,
na forma dos papeizinhos que encontrara sob o altar,
os quais guardava agora consigo, escondidos em meio
às tábuas do assoalho – não haveria o Dom de encontrá-los,
pois seriam inimagináveis os castigos que lhe infligiria.
e por fim decidiu-se começar por aquilo que mais lhe doía,
as acusações do velho indecente contra ela, como se fosse
culpa sua a promiscuidade em que ele próprio vivia,
e Tchissola copiou com letra miúda, “Si delictorum memoriam
peccatorum venia[5]”, e abaixo, “Se tiveres em conta nossos pecados,
o perdão dos pecados”, e ela prosseguiu, “Spero in Dominum,
Dominum, magis quam custodes auroram[6]”, e copiou o trecho
traduzido, “Ponho a minha esperança no Senhor; minha alma
tem confiança em Sua palavra, minha alma espera pelo Senhor,
mais ansiosa do que os vigias pela manhã”, e logo a seguir
mirabilibus super me[7]”, que quer dizer, “Senhor, meu coração
não se enche de orgulho, meu olhar não se levanta arrogante,
não procuro grandezas, nem coisas superiores a mim”.
“Dirigitur oratio mea sicut incensum in conspectu tuo; elevatio
oração se eleve a Ti como o incenso, e as minhas mãos como
um sacrifício vespertino”, e finalmente, “Intende ad deprecationem
meam, quia me fortiores sunt; educ de custodia animam meam,
ut gratias agam nomini tuo[9]”, ou seja, “Atende ao meu clamor,
porque estou numa extrema miséria, livra-me daqueles que me
perseguem, porque são mais fortes do que eu, e tira-me desta prisão,
para que possa agradecer ao Teu nome”, e em seguida dobrou
e foi escondê-la no lugar onde encontrara as outras, por entre
as tábuas da parte de trás do altar da capela, pensando consigo,
“Se o Senhor Deus entende latim, como diz o Dom, ele terá
que compreender minha angústia, e certamente virá me salvar”,
e assim pensando fez como se decidira, e depois colocou-se
uma pessoa ocupada, mas olha para mim, por mais enjeitada
que eu mereça, e salva-me dessa vida, porque sinto que já não
aguentarei por muito tempo mais, mas faça-se em mim a tua
vontade, não a minha, pois só tu sabes o que será melhor para
a tua Tchissola, tua Alegria, Senhor, eu não sou uma diabinha”. (24-2-26)
Fazendo a inspeção de sua capela no Paço
Episcopal,
Dom Bernardo arrodeou o altar para ver se estava
tudo limpo e nos conformes, conforme ordenado
(pois era preciso que a capela rescendesse a santidade,
o local onde costumava possuir suas negrinhas
entre as velas acesas, o incenso e a água benta
com a qual depois as lavava, purificando-se do ato),
e notou, por entre as tábuas, uma
pontinha de papel,
e, puxando-a dali, veio uma página com uma caligrafia
dele conhecida, e lendo o que ali estava escrito, como
“Intende ad deprecationem meam, quia humiliatus sum nimis,
libera me a persequentibus
meam, quia me fortiores sunt;
educ de custodia anumam meam, ut gratias agam nomini tuo[10]”,
e também “Spero in Dominum, sperat anuma mea in verbum eiu;
exspectat anima mea, Dominum,
magis quam custodes auroram[11]”,
e, compreendendo o que havia por
trás das palavras devotas,
saltavam-lhe as veias às têmporas com a mensagem,
e sentiu subir-lhe o sangue à cabeça, e a fúria tomar-lhe
a mente como uma neblina, e perdeu todo senso,
e só pensava consigo mesmo, “Então foi para isso
que ordenei aulas a essa menina, para que soubesse
ler e escrever, oh!, como sou bom e como fui tolo,
essa diabinha, minha protegida, a quem dei tudo,
e todo o meu afeto e carinho – às
vezes exagerado,
eu sei, mas carinho de um modo ou de outro – para
receber agora em paga essa traição, pedindo ela a Deus
que a liberte de meus bons tratos, como se algum
prejuízo eu possa ter lhe causado, justo eu, um pai,
e mais do que um pai, um amante apaixonado, ah!,
Tchissola, isso não vai ficar
assim, é nessas horas
que percebo a inutilidade de educar a essa gente,
que, no fundo, só serve para uma coisa, sempre a mesma,
pois não sai nunca delas a sensualidade, e não importa
a elas outra coisa, do que levar uma vida de pecado,
ah!, mas isso não vai ficar assim, deixa estar, que vou
ensinar a esse demoniozinho o que há a ser ensinado”. (25-2-26)
Dom Bernardo arrodeou o altar para ver se estava
tudo limpo e nos conformes, conforme ordenado
(pois era preciso que a capela rescendesse a santidade,
o local onde costumava possuir suas negrinhas
entre as velas acesas, o incenso e a água benta
com a qual depois as lavava, purificando-se do ato),
e, puxando-a dali, veio uma página com uma caligrafia
dele conhecida, e lendo o que ali estava escrito, como
“Intende ad deprecationem meam, quia humiliatus sum nimis,
educ de custodia anumam meam, ut gratias agam nomini tuo[10]”,
e também “Spero in Dominum, sperat anuma mea in verbum eiu;
saltavam-lhe as veias às têmporas com a mensagem,
e sentiu subir-lhe o sangue à cabeça, e a fúria tomar-lhe
a mente como uma neblina, e perdeu todo senso,
e só pensava consigo mesmo, “Então foi para isso
que ordenei aulas a essa menina, para que soubesse
ler e escrever, oh!, como sou bom e como fui tolo,
essa diabinha, minha protegida, a quem dei tudo,
eu sei, mas carinho de um modo ou de outro – para
receber agora em paga essa traição, pedindo ela a Deus
que a liberte de meus bons tratos, como se algum
prejuízo eu possa ter lhe causado, justo eu, um pai,
e mais do que um pai, um amante apaixonado, ah!,
que percebo a inutilidade de educar a essa gente,
que, no fundo, só serve para uma coisa, sempre a mesma,
pois não sai nunca delas a sensualidade, e não importa
a elas outra coisa, do que levar uma vida de pecado,
ah!, mas isso não vai ficar assim, deixa estar, que vou
ensinar a esse demoniozinho o que há a ser ensinado”. (25-2-26)
bufando a cada passo, a maquinar excomunhões e cadafalsos,
despejando todo seu ódio sobre Tchissola, “Essa maldita
Joaninha, que eu lhe dei o nome – eu! – que antes sequer nome
tinha, ‘Tchissola, Alegria’, como se alegre ficasse ao lado
de minha presença, ah, não, só sorria quando estava apartada
com as outras negrinhas, comigo sempre emburrada,
devassa tão necessitada das bênçãos que lhe despejava
a cada vez, cobrindo-a com a semente santa da minha lavra,
e agora eu recebo isso!, eu, que a possuía nesse chão sagrado
apenas para purificá-la, sob os olhos de Cristo pregado
à sua cruz apenas para pagar os seus pecados, por meio
de minha santa intervenção, desse homem abençoado
de seus orifícios, furnas do diabo, e tudo para reintegrá-la
à verdadeira religião, feita de obediência, dogmas, luto,
penitência, flagelação e o pagamento dízimo devido,
esse dízimo mínimo que cobro de cada negrinha, para levá-las
ao céu no dia do Juízo, eu, o grande sacerdote dessa terra
de bugres, de alucinados, de ignorantes e pobres coitados,
que me esfalfo noite e dia em seu benefício, e agora isso,
que de mim fugiu antes de Joaninha, por um descuido meu,
na garupa de um maldito anspeçada que aqui pousou,
e que a levou em plena madrugada, sem pedir licença,
sem a minha bênção, sem uma despedida ao menos!, mas
dessa vez não, Joaninha conhecerá as correntes, o calabouço,
e todo o empenho com que irei corrigi-la, para seu próprio bem,
nem que para isso tenha que matá-la, pois mais vale morta
no Paraíso, do que viva nessa terra pecaminosa e abandonada”. (25-2-26)
9
a vigiar Tchissola, como se nada houvesse acontecido,
como se ignorasse as intenções da menina, e acompanhava
sem ser visto suas idas e vindas da capela, e o modo como
rodeava o altar, como se conferisse ainda lá estar seu pedido,
infantil que ele próprio – oh!, pobre Bernardo! – lhe havia ensinado,
e Tchissola logo regressava aos seus afazeres, fingindo-se
ocupada, para logo retornar à cena do crime, esperando, saiba-se lá!,
algum milagre?, que lhe viesse resgatar o próprio Cristo, ou quem sabe
fazia assim crescer seu ódio, até senti-lo pulsar pelo corpo inteiro,
e então, encontrando um dia Tchissola a sós na cozinha, atirou-se
sobre ela, espumando, e a arrastou pelo chão com o máximo
de violência, e atirou-a sobre a mesa ainda suja de restos
de custar tua desobediência, mas primeiro hei de marcar-te
a carne, para que saibam todos que és minha”, e, tomando
nas mãos um ferro em brasa, aproximava-se de Tchissola,
que, em pânico, não esboçava reação alguma, quando o recinto
pareceu explodir, e numa nuvem (ou seria um relâmpago,
sobre o bispo, fulminando-o com uma paulada certeira que
lhe abriu a cabeça, prostrando-o no chão inanimado, e Tchissola
sentiu-se tomada por mãos rápidas e seguras, que a levantaram
sumindo-se as três noite afora, em desabalada carreira, como se
o mundo inteiro estivesse em seu encalço, como se não importasse
mais nada, senão correr, senão fugir, senão gritar, “Liberdade!”. (25-2-26)
10
falando baixo para não chamar a atenção, e um dizia,
“Soubeste do triste desfecho da história de nosso bispo,
o querido Dom Bernardo?”, e o outro retrucava, “Pobre homem,
dizem que foi vítima do esconjuro de poderosas bruxas,
e além de bruxas, alcoviteiras, que lhe impuseram sortilégios,
maldições e todo tipo de mau-olhado”, e o primeiro respondia,
se chamava, nome dado pelo próprio Dom Bernardo,
que a tinha em grande apreço”, e outro completava, “Chegou
a ensinar-lhe as primeiras letras, mas você sabe como são
esses pretos, uma gente ingrata, não suportam o menor corretivo
que já querem ir-se embora e fugir, e é por isso que nunca
haverá de ter fim o bom negócio do tráfico, ainda que o desejem
me encaixo”, e o primeiro falou então, “Tinha-lhe tanto amor,
que após tratar-se do ferimento que lhe fez a diaba, começou
a ter delírios e febres, e dias houve em que não dizia palavra,
enquanto em outros repetia, como um encantamento,
‘Libera me a persequentibus meam, quia me fortiores sunt;
educ de custodia animam meam, ut gratias agam nomini tuo[12]’,
oh!, pobre homem, tão piedoso!”, e concordava o primeiro,
essas classes de mulheres, pois são capazes, as perversas,
de levar a loucura os homens mais sinceros”, e o outro arrematava,
“Mas estamos agora diante de um grande problema, para a vila
e a sociedade, pois o que havemos de fazer com Dom Bernardo?
Faz tempo que já não reza a missa, nem nos exorta com suas
homilias, tão necessárias às famílias, e agora deu para sair às ruas
de todos, e a notícia já chegou até a cidade”, e dizia ainda o primeiro,
“Nem quando lhe contaram da morte da desgraçada, precipitada
com outras duas numa furna profundíssima e inacessada,
o pobre apaixonado encontrou refrigério, ao contrário, esteve
por algum tempo muito satisfeito, mas depois agravou-se
e agora deu para andar a esmo e escavar com as mãos
em algum local do cemitério, balbuciando um latinório
incompreensível, ‘et nunc reges intelligite; erudimini
de exorcismo, para, em seguida, murmurar entre soluços,
por vulgo Tchissola, pronúncia bárbara de sua África
natal”, e o outro finalizava, “E à noite, arrasta-se pelas
esquinas esquisitas dos arrabaldes dessa vila, repetindo
a quem o queira ouvir, se desviados, prostitutas, ladrões,
malandros, desocupados, ‘Puritia, candor, sanctinomia[14]’,
e só se recolhe ao Palácio Episcopal quando vai alto o dia”, e
ambos completaram, “Pobre Dom Bernardo, pobre bispo!”. (25-2-26)
NOTAS
[1] Salmo 141.
[2] Salmo 140.
[3] Salmo 128.
[4] Salmo 129.
[5] Salmo 129.
[6] Ibid.
[7]Salmo 130.
[8] Salmo 140.
[9] Salmo 141.
[10] Salmo 141.
[11] Ibid.
[12] Salmo 141.
[13] “E agora, ó reis, entendei; aprendei, vós que julgais a terra.” (Salmo 2)
[14] “Pureza, candura, santidade”.
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