2. EU, TCHISSOLA - PARTE 2: TCHISSOLA E A MORTE QUE NÃO HOUVE

 EU, TCHISSOLA



PARTE 2: TCHISSOLA E A MORTE QUE NÃO HOUVE



1



Enquanto voavam pela mata, Tchissola ia,
agarrada às mãos de Antônia e Eulália,
e por sua mente embaçada passavam imagens
de nuvens, de ventos que sopravam
estranhas melodias, de pássaros que passavam
raspando por ela, e com seus bicos lhe traziam
frutas de pomares místicos, nunca vistas
por olhos humanos, e o sol se abria num sorriso,
 
enquanto, lá embaixo, havia um alvoroço
e cães latiam, e Tchissola sentia no coração
uma alegria nunca antes sentida, e sabia
que Deus havia lido seus papeizinhos, e que
certamente Ele entendia latim, como aliás
todas as outras línguas desde Babel, e ela
agradecia pela atenção que recebera, que nunca
imaginou que mereceria, ela Tchissola, a maior
de todas as messalinas (segundo o senhor bispo),
 
carregada dos pecados da carne, que já nem mais sentia,
exausta de ser abusada, e de tentar preservar
entre as mãos em concha a água de sua pureza
que escorria por entre os dedos, e a cada vez
essa água rebrotava e nunca se exauria, e Tchissola
teve a certeza de que o Deus infinito dispunha
de quanta pureza ela precisasse, e que nunca
lha negaria, até o dia em que seria libertada,
e então, de seu interior manariam rios de água viva[1],
 
que ela sentia borbulhar nas entranhas, e ela cria,
cria, cria nesse Deus que por ela olhara, no momento
em que todo esforço humano que havia nela
lhe faltara, e essas emissárias, como anjos,
a resgataram viva, para uma nova vida que, desde
as alturas em que agora levitava, ela via, enquanto
corriam pela mata, a brisa a lhe acariciar o rosto,
 
essa carícia que pela primeira vez sentia, e suas mãos
apertavam as mãos das duas amigas, e as três
atravessavam o mundo em carreira desabrida,
em temor, anseios e esperanças de pura alegria,
e assim chegaram à clareira, onde pararam exaustas
e se sentaram para comer o toucinho, e falaram entre si,
e assim passaram o dia, até se recompor cada uma delas,
e quando se levantavam para prosseguir a caminhada
 
ouviu-se um tiro, e Tchissola sentiu inundar-se o peito
de sangue, e outra vez as duas a tomaram nos braços,
a correr, até que se depararam com um precipício, e,
ali cercadas, não lhes estava opção senão entregarem-se
à carnificina, e Tchissola, embriagada pelo terror
de retornar ao cárcere do bispo, abraçou-se às duas amigas
e, dando um impulso com o pé, precipitaram-se as três
no abismo, sendo engolidas pelas profundezas, até que
 
silenciaram os gritos dos pássaros, e mesmo as folhas
das árvores fizeram silêncio, e cessou o vento, e nada
podia ser ouvido, e os cães pararam de latir, e os homens
mandados com a milícia acabaram por se afastar,
na certeza de que estavam mortas as fugitivas, e
as deixaram para os abutres e os carniceiros, que delas
se encarregariam, até que não restassem mais do que
ossos embranquecidos, e sua memória se apagasse,
pelos séculos dos séculos, até que viesse o dia do Juízo. (26-2-26)




 
 2



 
Tchissola esteve muito tempo numa escura caverna,
e seus olhos custaram a se acostumar com a pouca luz,
e seu corpo todo doía horrivelmente, e ela, com esforço,
arrastou-se para o lado de onde vinha alguma claridade,
e começou a ouvir confusamente vozes que gritavam,
 
e, temerosamente, esgueirou-se por uma fenda, de onde
divisou soldados vestidos de uma estranha maneira,
como nunca vira, e uma multidão esfarrapada e suja,
e no centro da cena, amarrado a um poste, um homem
desgrenhado, com uma bizarra coroa de espinhos,
era açoitado barbaramente, enquanto a turba ensandecida
contava “vinte e um!, vinte e dois!, vinte e três!...”,
 
e o homem estava já coberto de sangue, mas em seu rosto
havia algo que ia além do sofrimento, como se... como se...
e Tchissola não chegava a conclusão nenhuma, e ouvia
a patuleia que ululava “trinta e cinco!, trinta e seis!...”,
e ela de súbito sentiu-se empurrada para o centro da arena,
a tempo de escutar “trinta e oito!, trinta e nove!, crucificai-o!”,
 
e então, movida por uma força que vinha de algum lugar,
se de dentro, se de fora dela, Tchissola  atirou-se aos pés
do homem, enlaçando suas pernas e cobrindo-se
com seu sangue, chorando compulsivamente e mesclando
suas lágrimas ao fluxo vital que escorria dos ferimentos
do látego do carrasco, e de repente tudo se dissipou
em fumo e cinzas, e de dentro de uma luz resplandecente
multidões emergiam, cantando a plenos pulmões,
 
“Ó Senhor, nosso Deus, que estabeleceste nos céus
as fileiras de Anjos e Arcanjos para o serviço da Tua glória;
concede que, juntamente com a nossa entrada, se realize
também a dos Teus santos Anjos que conosco concelebram
e glorificam a Tua bondade. Pois a Ti pertence toda a glória,
honra e adoração, Pai, Filho e Espírito Santo, agora e sempre,
pelos séculos dos séculos. Amém”, e o homem flagelado
 
tomou-a nos braços e beijou seus cabelos, e a colocou
no chão, com delicadeza infinita, e nesse momento
todas as suas dores cessaram, e Tchissola se viu estirada
ao lado de Eulália e Antônia, na mesma caverna vazia,
e cada uma delas levantou-se devagar, como se viessem
de algum outro mundo, como se retornassem da antessala
 
da mansão dos mortos, como se tudo à sua volta fosse
novo, e cada uma delas estendia a mão para tocar as outras,
e beijavam-se e se abraçavam com exclamações de alegria,
e aos poucos se levantaram, e   então viram que ao fundo
da gruta havia em trempe improvisado, com pedras, e brasas
acesas, e sobre elas, num espeto, assava um peixinho. (26-2-26)
 
 



3 





As três mulheres deram-se as mãos e iniciaram uma prece
do fundo do coração, e Tchissola sentia que ondas de fervor
subiam de suas entranhas, penetrando o coração e a mente,
e expulsavam todos os pensamentos, emoções, lembranças,
julgamentos, dúvidas e certezas, e só restava uma espécie
de paz envolvente, que cancelava o mundo, tal como o vemos,
 
e nos apresentava um mundo desconhecido, onde as mesmas
coisas possuíam um brilho diferente, e um significado profundo
que não podia ser descrito, e Tchissola só queria, nesse momento,
permanecer nesse estado, uma espécie de êxtase sem palavras,
um gozo silencioso e pleno, que a preenchia inteira, e ela
já nem recordava as palavras da oração, já nem sentia as batidas
de seu coração, ou a respiração que subia e descia, nem
as mãos calorosas de Antônia e Eulália, que seguravam as suas,
 
e aos poucos, muito lentamente, a prece que faziam em conjunto
foi evanescendo, subindo como fumaça de incenso, até se perder
na abóboda da gruta, e dali ganhar os céus, onde as aves
continuavam seu voo livre, as árvores alçavam o corpo
até as nuvens, e, muito acima delas, divisava-se a borda do abismo
de onde se precipitaram até alcançar o milagre do fundo, e dali
emergirem vivas, por meios e propósitos que desconheciam,
 
e então as três se abraçaram estreitamente, e dividiram entre si
o peixinho que repousava nas brasas, colocado ali por alguma
providência indescritível, e então, sentindo-se revigoradas,
procuraram se haver com o que por ali havia, e decidiram-se
a pousar na própria caverna, que lhes oferecera sua proteção,
e alimento, e frescor, um teto, um chão, uma vida, um destino. (27-2-26)
 

 



4



 
E seguiram-se dias e dias de conversas profundas,
quando Antônia e Eulália contavam a Tchissola
os mistérios dessa nova vida que começava,
e ela sentia que se abria diante de seus olhos
uma estrada que ela poderia percorrer livremente,
sem olhar para trás, sem ter que lembrar
dos momentos horrorosos de seu passado recente,
 
tendo lavado de sua alma lembranças, rancores,
ódios, ressentimentos, e tudo se tornara uma nuvem
inócua, que choveria algures sua chuva indiferente,
e já não regaria as plantas que cresciam no jardim
de sua consciência, ela, Tchissola, que agora
voltaria a ser apenas Alegria, a pura alegria
de se encontrar frente a frente com Deus, com Cristo,
 
com o homem ao qual se abraçara em seu suplício
e que lhe sorrira um sorriso de paz, de harmonia,
e todo o universo girava agora em torno daquele
momento, e ela voltava a sentir o sangue quente
daquele homem, que lhe escorria sobre o vestido
e molhava seu corpo, banhado em lágrimas,
 
e tudo isso era seu próprio milagre, milagrezinho,
que ela só partilhava com o flagelado, e com ele
se encontrava a sós, a trocar confissões, perguntas
e suspiros de amor, do qual só os dois sabiam. (27-2-26)
 
 



5



 
Ó meu amigo flagelado, eu te pergunto, quando estavas
atado àquele poste em que te vi, e o carrasco contava
as chibatadas – trinta e nove, para não dar errado – e tu,
do alto de Tua Divindade, te despias assim, submetendo-te
aos humanos desígnios dessa raça de homens vis, que nada
veem além do que lhes interessa para o momento exato
e mal interpretado do que vivem, quando estavas ali,
 
o que pensavas, se é que pensavas como nós, com palavras
escritas a giz na mente, que o vento sopra e apaga, o que
sentias, se é que sentias como nós, como riscas de espinho
na pele, que logo se curam ou se abrem em feridas, o que
esperavas, se é que esperavas como nós, que olhamos
o escuro, tentando divisar nele formas e conteúdos, mas não,
 
Tu estavas apenas recebendo cada golpe, em nome
da humanidade, para que Te fizesses pleno de seus pecados,
para que recebesses em Teu corpo todos os crimes de nossos
antepassados, para que conhecesses, como divindade,
o que são os homens na sua constituição interna, cheia
dos nexos contraditórios que flutuam num mar confuso
 
entre o bem e a maldade, um quase-bem (porque praticado
sem sejas Tu a causa) e um mal sempre presente, ainda que
disfarçado, eu Te pergunto, se vias as caras daqueles que
Te rodeavam, os olhares de ânsia furiosa, de vingança bruta,
de um desejo de mais dor, mais flagelo, maior tortura – vamos ver
até onde ele aguenta! – como vi eu mesma nos olhos
do senhor bispo, quando me açoitava com sua concupiscência,
 
com seus impulsos malditos, vamos ver até onde ela aguenta,
vamos desmanchar essa beleza em sangue e ferimentos,
vamos vê-la recompor-se num novo corpo negro e esguio,
que receba outra vez o látego de minha saliva, e quando Te vi,
vi a multidão que Te comia com os olhos, vi as mãos apertadas,
os coros prontos a dar o bote, e Tua santa impassividade
 
parecia aumentar neles o frenesi da perversão e da ruindade,
como meu silêncio de cordeiro aumentava em “sua santidade”
aa volúpia de me bater mais e mais, e de aumentar a cada vez
as ferramentas que buscava nas oficinas malignas de sua mente,
e eu nos vejo, a Ti, meu Deus, e a mim, Tchissola, naquela
estaca amarrados, e por isso talvez me tenha abraçado
ao Teu corpo feito sangue, para banhar-me no mesmo sangue,
para dar-me a Ti por inteira, eu Tchissola, a Ti, meu Cristo torturado.
 
No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.
 
Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.
 
Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.
 
No me tienes que dar porque te quiera,
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera[2]. (28-2-26)





NOTAS




[1] João 7: 38.
[2] Anônimo, Soneto a Cristo Crucificado, c. 1628.


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